O vulcão que está nos queimando

Essa é uma daquelas madrugadas frias, em que apesar de me sentir demasiadamente cansada do longo dia que tive ( e precisando desesperadamente dormir cedo* ou pelo menos antes das duas da manhã já que irei acordar as sete), me sinto motivada a escrever. 

Motivada pelo que ou quem? Escrever sobre o que exatamente?
Bom… a verdade é que nem sei por onde começar, mas senti falta de estar aqui. Como devem saber escrever me acalma, me faz organizar as ideias, as colocando em desordens de loucas escritas, que mais se parecem absurdos caóticos, de emoções em combustão na larva fervente de um vulcão de caracteres.

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É … FICA PERCEPTÍVEL A TODO E QUALQUER LEITOR QUE CONTINUO TÃO EXAGERADA NA EXPRESSÃO QUANTO SEMPRE FUI, E AINDA POSSUO ESSA ÂNSIA DE DIZER UM BILHÃO DE COISAS, QUE POR MAIS QUE EU SAIBA QUE NÃO CABERIAM NUM ÚNICO TEXTO, EU TENTO … TENTO MESMO!

Tenho sentido estes últimos meses e dias com uma sensibilidade extrema…  muitas coisas aconteceram comigo, com o Brasil e com o mundo!
Sangue-sugas estão governando nosso país, há rumores ( não são só rumores, mas causa menos panico colocar assim ) de terceira guerra mundial. E eu ainda me pego hora ou outra navegando entre livros/filmes/músicas/estranhos(as)/conversas e etc, tentando em algo, alguém , ou algum lugar, de alguma maneira fingir que o mundo não esta em erupção. Ou mesmo aceitando que esta ( pois esta mesmo! ), continuo como todos ( ou pelo como a maioria ) tentando evitar a larva quente, mesmo quando essa me queima.

Mucosas grotescas provocadas pelo vírus do ódio , bactérias de ganancias sem limites, intoxicações capazes de causar absoluta falta de empatia, estamos queimando, e apenas assistindo o mau acontecer e nos afetar.

Nós não podemos apenas mudar de canal, abaixar o volume da rádio, evitar a manchete do jornal e pular para os filmes em cartaz, rasgar os livros que previam esta realidade em nossa sociedade … não podemos simplesmente evitar, não quando até as noites frias chegam, e ainda sim sentimos queimar , a história se repete (?)

De repente já não é mais tão importante falar sobre mim, não agora, que o mundo ao redor está fritando … ou talvez eu só esteja falando porque a larva quente chegou até mim, e tenha me queimado a tal ponto em que eu preciso optar seriamente entre sobreviver consciente, ou rastejar  para a marcha dos zombies escravizados. 

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O Titanic somos nós

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Mais uma leitura acerca dos tempos líquidos, dessa vez ‘Medo Líquido’ (obviamente de Zygmunt Bauman).
O livro esmiúça bem medo por medo, que possuímos na sociedade atual, medo da violência das grandes cidades, medo de perder o emprego, medo de perder quem amamos, medo do terrorismo, da fúria da natureza … medo da morte, medo da própria vida.

Aos poucos vou postar trechos aqui, pra reflexão da loucura em que vivemos.

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Trechos, pag. 20 e 21
Muitos anos atrás, e alguns anos antes que os eventos 11 de Setembro, o tsunami, o furacão Katrina e o terrível salto subsequente nos preços do petróleo ( ainda que misericordiosamente por pouco tempo dessa vez) propiciassem essas oportunidades horríveis de acordar e ficar sóbrio, Jacques Attali refletia sobre o fenomenal sucesso financeiro do filme Titanic, que superou todos os recordes de bilheteria anteriormente obtidos por filmes-catástrofes aparentemente semelhantes.
Ele então ofereceu a seguinte explicação,notavelmente plausível quando a escreveu,mas que, alguns anos depois, nos soa nada menos que profética:

O Titanic somos nós, nossa sociedade triunfalista, autocongratulatória, cega hipócrita, sem misericórdia para com os pobres – uma sociedade em que tudo está previsto, menos os meios de provisão…Todos nós imaginamos que existe um iceberg esperando por nós, oculto em algum lugar no futuro nebuloso, com o qual nos chocaremos para afundar ouvindo música…

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Sim, icebergs -não um iceberg, mas muitos, provavelmente em número grande demais para serem contados. Attali identificou alguns deles: financeiro, nuclear,ecológico, social.

Trecho  pag. 28 

 Os temores emanados da ”síndrome do Titanic”  são os de um colapso ou catástrofe capaz de atingir todos nós, ferindo  cega e indiscriminadamente, de modo aleatório e inexplicável, e encontrando todos despreparados e indefesos.

Ver também:

Big Brother e o medo da exclusão

Flertando com a escrita de Roland Barthes

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Como eu sempre fico de olho no que surge na sessão de Sociologia do meu sebo favorito aqui em SP, um dia acabei descobrindo Roland Barthes que foi além escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo… enfim, foi demais e como todo bom escritor será sempre demais!
FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO é um livro que explicou com exatidão o estado psicológico retardado de um ser apaixonado, o livro descreveu da maneira mais verdadeira possível todos os estágios interiores e exteriores que se da através de uma relação amorosa.
O livro me fez lembrar de certas situações vividas, me fez pensar em quem sabe amadurecer quando o assunto é amar ( ou demonstrar amor ), me fez rir e quase ( faltou pouco ) me fez chorar.

Já se perguntou porque ama a quem ama? O que torna fulana(o) tão especial?
Barthes já : “Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro pelo qual estou apaixonado me designa e especialidade do meu desejo. Esta escolha, tão rigorosa que só retém o Único, estabelece, por assim dizer, a diferença entre a transferência analítica e a transferência amorosa; uma é universal, a outra é específica. Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis o grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente? É ele inteiro que desejo (uma silhueta, uma forma, uma aparência)? Ou apenas uma parte desse corpo? E, nesse caso, o que, nesse corpo amado, tem a tendência de fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente? O corte de uma unha, um dente um pouquinho quebrado obliquamente, uma mecha, uma maneira de fumar afastando os dedos para falar? De todos esses relevos do corpo tenho vontade de dizer que são adoráveis. Adorável quer dizer: este é o meu desejo, tanto que único: “É isso! Exatamente isso (que amo)!”

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E se o que você ( assim como eu ) pensava ser amor acabou, como acaba a sessão de cinema daquela comédia-clichê-romântica, e você ficou se perguntando como será a vida dos personagens depois da cena final, bom eu sinto muito mas pode ser que até pra eles lá frente tudo tenha acabado. Como a maioria das coisas (coisas da vida) acabam, simplesmente porque devem acabar. Se esgota, termina e pronto!
“Como termina um amor? – O quê? Termina? Em suma ninguém – exceto os outros – nunca sabe disso; uma espécie de inocência mascara o fim dessa coisa concebida, afirmada, vivida como se fosse eterna. O que quer que se torne objeto amado, quer ele desapareça ou passe à região da Amizade, de qualquer maneira, eu não o vejo nem mesmo se dissipar: o amor que termina se afasta para um outro mundo como uma nave espacial que deixa de piscar: o ser amado ressoava como um clamor, de repente ei-lo sem brilho (o outro nunca desaparece quando e como se esperava). Esse fenômeno resulta de uma imposição do discurso amoroso: eu mesmo (sujeito enamorado) não posso construir até o fim de minha história de amor: sou o poeta (o recitante apenas do começo); o final dessa história, assim como a minha própria morte, pertence aos outros; eles que escrevam romance, narrativa exterior, mítica.”
É quase impossível o livro não falar diretamente com o leitor, o tempo todo você vai se ver nele, ou ao menos ver quem já amou nele.Acaba sendo divertido ler toda sua historia de amor narrada pelo outro ( que nem te conheceu rs! ).
Barthes apesar de ter uma escrita direta,  mas repleta de exemplos possuía o dom do que chamava de scriptor, cujo poder único é combinar textos pré-existentes em novas formas, por isso sua obra é cheia de trechos de grandes obras, e fragmentos de lembranças que tornam ainda mais fácil a compreensão do que ele deseja transmitir.
Barthes acreditava que toda escrita se fundamenta em textos anteriores, reescrituras, normas e convenções, e que estas são as coisas às quais nos devemos voltar para entender um texto. Além disso, de forma a apontar a relativa falta de importância da biografia do autor de um determinado texto, comparado com as convenções textuais e culturais pré-existentes, Barthes afirma que o escritor não tem passado, pois nasce com o texto. Ele também afirma que, na ausência da idéia de um “autor-Deus”, para controlar o significado de determinado trabalho, os horizontes interpretativos estão abertos para o leitor ativo. Como Barthes declara, “a morte do autor é o nascimento do leitor.

E esse (ironicamente ou não) é tipo de livro que vou ler de novo, de novo de novo.É … ACHO QUE ME APAIXONEI PELO  BARTHES …

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A errância amorosa tem seus lados cômicos: parece um balé, mais ou menos rápido conforme a velocidade do sujeito infiel; mas é também uma grande ópera (Wagner). O Holandês maldito é condenado a errar sobre o mar até encontrar uma mulher de uma fidelidade eterna. Sou esse Holandês Voador; não posso parar de errar (de amar) por causa de uma antiga marca que me destinou, nos tempos remotos da minha infância profunda, ao deus Imaginário, que me afligiu de uma compulsão de fala que me leva a dizer “Eu te amo”, de escala em escala, até que qualquer outro escolha essa fala e a devolva a mim; mas ninguém pode assumir a resposta impossível (que completa de uma forma insustentável), e a errância continua.”

Queria que alguém fizesse desse livro um mega  filme, uma mega peça … uma peça já fizeram, lá no Rio ( ver sobre aqui ) .

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E pra quem quiser ler mais trechos do livro antes de correr para o sebo mais próximo, ver aqui

A necessidade deste livro funda-se na consideração seguinte: o discurso amoroso é hoje de uma extrema solidão. Tal discurso talvez seja falado por milhares de sujeitos (quem pode saber?), mas não é sustentado por ninguém; é completamente relegado pelas linguagens existentes, ou ignorado, ou depreciado ou zombado por elas, cortado não apenas do poder, mas também de seus mecanismos (ciência, saberes, artes). Quando um discurso é assim lançado por sua própria força na deriva do inatual, deportado para fora de toda gregariedade, nada mais lhe resta além de ser o lugar, por exíguo que seja, de uma afirmação.’ R.B.

 Fragmentos de um Discurso Amoroso .  Roland Barthes – Martins Editora
Ps : A minha foto do início do post, é da 16 Edição (2001) Livraria Francisco Alves Editora S .A