Resenha: O Calor Do Sangue

PicsArt_10-01-08.17.30O Calor Do Sangue – IRÉNE NÉMIROVSKY

É na França da década de 30, que Sílvio um homem já velho, relembra sua juventude. Enquanto a morte sem muitas explicações do personagem Jean Dorin, acaba pouco a pouco por revelar alguns segredos acerca de outros personagens.

O livro parece ter tentado seguir a linha de mistério policial, mas fracassou feio nessa tentativa. No entanto é recheado de boas frases, e eu separei dois trechos  para que se tenha uma noção da escrita de Némirovsky:

Não sei se o ser humano faz sua própria vida, mas o certo é que a vida acaba por  por transformar o homem.

Cada um deve viver e sofrer por si próprio. O serviço que podemos prestar aos nossos filhos é deixar que ignorem nossa própria experiencia. 

O titulo “Calor do Sangue” se refere a chama da vontade, tipicamente jovem, que faz com que se viva para realizar os próprios desejos, da maneira mais intensa e egoísta possível.

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E leva o leitor a refletir sobre o qual tolos somos nessa fase da vida, e como isto pode resultar no nosso futuro (e também no de outras pessoas). 
A obra inacabada, que deveria ter sido datilografada pelo marido da Irène, Michel Epstein, foi interrompida quando Michel soube da prisão de Némirovsky, pela polícia nazista em 1942. Denile Epstein a filha do casal, foi quem apresentou ao mundo as obras da mãe.

Considero uma leitura leve, bem vinda para quem gosta de detalhes e reflexões do gênero.

 

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Resenha: O Homem Duplicado

PicsArt_10-01-08.16.55O Homem Duplicado JOSÉ SARAMAGO

Minha historinha com o livro: Certa noite (a cerca de três ou quatro semanas), pedi a meu irmão cinéfilo sempre citado por aqui, a dica de um filme. E fiquei muito feliz em saber que ele me recomendou um filme com Jake Gyllenhaal como devem saber, meu queridinho!, mas ele me advertiu ‘ ESSE EU JURO QUE NÃO ENTENDI! MAS SE QUISER TENTAR! ‘  

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Foi então que eu e meu namorado dedicamos a noite a pensar sobre o filme  de Denis Villeneuve, baseado na obra de José Saramago. // Post sobre o filme aqui // Mas não obtivemos muito sucesso, então decidi comprar o livro (e ler Saramago pela primeira vez), e o resultado da leitura (foi uma experiencia tão  insólita quanto ter visto o longa ) rendeu a resenha abaixo:

RESENHA
O inicio do livro  (narrado em terceira pessoa) nos leva supostamente a conhecer Tertuliano Máximo Afonso (nome que Saramago repetiu de 3 a 5 vezes em cada página!), um homem refém de um cotidiano monótomo, que se dividi entre dar aulas de História e ler sobre as civilizações mesopotâmicas.
Aos trinta oito anos de idade e recém divorciado, o protagonista vai dia após dia sucumbindo a depressão, até que um colega de trabalho (o professor de matemática) lhe indica um filme, o qual Tertuliano aluga, e acaba por descobrir seu clone no longa (se trata de um ator com papéis medíocres de pontas).
Tertuliano passa a desejar descobrir mais sobre o homem, cujo a face e todo resto é perfeitamente igual a ele. Mergulha então em horas e horas de cinema, assistindo a muitos filmes da produtora onde trabalha seu duplo. Até que finalmente descobre a identidade do mesmo, e busca uma forma de conhece-lo.
A essa altura da leitura, já sabendo que não se trata de gêmeos, clones ou irmãos, tem até um aviso na contra-capa de que não seria algo tão obvio, foi então que comecei como leitora, a me perguntar se Tertualino era mesmo o homem pacato apresentado pelo narrador. Pois sua súbita obsessão em conhecer seu duplo, acabou por leva-lo a se questionar muito acerca de si mesmo, até que ele sofre uma enorme crise existencial,e  se mostra mais perturbado, do que  apenas triste e entediado.

Saramago construiu uma narrativa simples acerca de homem  Tertualiano nos dizendo  oque  este faz, como é, o que possuí , e que não possuí, mas este é na verdade  um personagem deveras complexo, o que faz com que a elaboração do livro chame atenção pelo cuidado do autor, em criar estrategias de suspense e mistério em torno do tema DUPLICIDADE.

Simbolismos e elementos parecem roubar a ”cena”, e em algum ponto subestimei Tertuliano por julgar conhece-lo, e é então que o Senso Comum (narrador do texto) nos leva ao desespero do personagem que vive o pesadelo do mito da originalidade, e percebemos que nada é realmente o que parece.

Super recomendo! 

Resenha: A fera em mim

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Quem me acompanha no instagram sabe que esses dias li o livro A FERA EM MIM de Serena Valentino, e fiquei de fazer uma resenha do mesmo por aqui. Mas antes de começar a falar sobre o livro, eu vou dizer quem é Serena e que tipo de trabalho ela desenvolve.

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13765776_10154381928647938_260042759071089273_oSerena Valentino é conhecida por seu estilo único de contar histórias, trazendo seus leitores para mundos assustadores, beleza e extraordinárias protagonistas femininas. (palavras da Wikipédia sobre a autora)

C5xvbKfU4AAx4eiEla é autora de uma série de livros intitulada Os vilões da Disney , lançada pela editora Universo dos Livros, a série propõe contar aos fãs de contos de fadas um pouco sobre quem eram os personagens icônicos antes de se tornarem grandes vilões .

Confira aqui toda a coleção. <<

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RESENHA

Agora falando do volume (único que li desta coleção de livros da autora) A FERA EM MIM, que adquiri nas lojas Americanas, pensando realmente ser um livro que abordaria todo conto da visão da Fera, vamos a minhas primeiras impressões sobre:

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Devo salientar primeiramente que como sou fã deste conto de fadas, e pensei que seria interessante um livro que abordasse justamente o ponto de vista do príncipe amaldiçoado, ao invés de uma mera narrativa, como o conto fora contado e recontado pela Disney nos filmes.Tive certa presa em ler o livro, e fiz a leitura de suas 235 páginas em poucas horas dividas em dois dias. E após ler o livro pensei Apenas uma obra Disney contada com alguns personagens a mais, uma ou outra diferença da versão dos filmes e só ! Nada de pensamentos do príncipe a cerca de como era estar preso a uma maldição, ou mesmo sobre ter se apaixonado por uma garota tão diferente do tipo pelo qual costumava se atrair
Eu não teria comprado o livro se soubesse que Selena Valentino se baseia nos vilões da Disney , e como esses se apresentam nas histórias da própria produtora infantil Walt Disney Pictures.
De uma maneira bastante simples, beirando uma mediocridade na escrita, Selena apenas mostrou a fera tal como a vemos nos filmes. O que é contado sobre o príncipe ser arrogante,egocêntrico, mimado e obsessivo por beleza e perfeição é algo que todos nós já vimos, ou seja o príncipe aqui aparece exatamente como nas versões cinematográficas.

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A amizade do príncipe com Gaston 
Uma diferença bastante notória é amizade que ele tem com Gaston, nesta versão ambos são grandes amigos de infância, e Gaston chega até a salvar a  vida do príncipe. Com o passar dos anos a amizade de ambos se torna ainda maior. Porém Gaston começa a mostrar indícios de inveja, o que acaba gerando uma certa competitividade entre eles.

As pretendentes do príncipe 
Antes de ser amaldiçoado o príncipe se encanta pela beleza de Circe, uma moça de cabelos loiro claro, olhos azuis pálidos e delicadas sardas. Chega a ficar noivo da mesma, porém ao descobrir que essa era filha de um criador de porcos desmancha o noivado.  Circe porém é uma feiticeira, e neste caso a feiticeira que lança sobre ele a maldição que o transforma em fera. Sim, nesta versão é esta ex noiva a responsável pela maldição, que acontece pouco a pouco atormentando o príncipe dia após dia.

Mais tarde conhecemos  a princesa Tulipa Morningstar uma moça que embora bastante simpática e bonita, não é muito inteligente, e justamente por este motivo motivo Gaston a apresenta ao príncipe como um ótimo partido, e logo se torna a nova noiva do príncipe.  

Nesta parte a narrativa começa  a abordar  ( de maneira medíocre ) a questão de que naquela época as mulheres não liam ou estudavam , pois estas eram  vistas como atividades masculinas.

Bela é uma personagem que aparece pouco na narrativa, embora  apareça misteriosamente no decorrer da estória como uma moça que o príncipe nunca consegue ver de frente. Bela é justamente o perfil de garota pelo qual o príncipe jamais iria se interessar (antes da maldição), pois por ser uma apaixonada por livros, pensa de maneira  muito diferente das outras mulheres.

Era verdade: todo mundo no vilarejo pensava que ela era estranha por ler muito, já que não se comportava exatamente como as outras garotas. *** E dai que ela estava mais interessada em ler sobre princesas do que em ser uma? * Trecho da página 193🌷  

Não era um mostro completo, era? Se fosse, não a teria matado? Não teria se importado em quebrar o feitiço.Assim, precisava dela desesperadamente. Ela era sua última chance. Não tinha certeza se merecia uma chance , mas interpretou a chegada de Bela  como um sinal de que deveria tentar.* Trecho da página 194 🌷  

Livros! Livros a deixavam feliz.Ela não era como qualquer garota que ele conhecera,e ele pensou que talvez gostasse disso. Na verdade, ele tinha certeza de que gostava.
* Trecho da página 197🌷  

As bruxas
Circe a feiticeira ”boazinha”, é a irmã mais nova de 3 bruxas: Marhta, Ruby e Lucinda que odiosas pelo que o príncipe fez a ela, buscam  não dar a ele a opção de se livrar da maldição (conhecendo o amor verdadeiro). Essa foi a única parte da estória em que noto o esforço da autora em tornar este um conto ”assustador”, tanto na descrição da aparência das bruxas, ou até mesmo no comportamento delas  Serena tentou realmente trazer ao livro um ar mais pesado, mas sinceramente não conseguiu!

O desfecho da história é bastante parecida com o que todos conhecemos, não  é um livro que eu recomende, e deixo aqui meu porque.

O sentido de um fim e as memórias que todos temos

Oi! 

Hoje eu vou resenhar a primeira leitura obrigatória da minha vida acadêmica como estudante de Letras, o livro O sentido de um fim ( título original : SENSE OF AN ENDING ), do autor inglês Julian Barnes.

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Iremos trabalhar o livro durante todo esse primeiro semestre,  na disciplina  Lingüística e Comunicação.

Confesso que comprei o livro há duas semanas, no entanto estava bem difícil dar continuidade a leitura do mesmo. Em parte por ler nas brechas de tempo no transporte público ( que convenhamos não é o que se pode considerar um bom lugar para leitura ), em parte por desinteresse na narrativa ( eu detestei o jeito esnobe como o narrador descreve  como eram seus  amigos colegiais, metidos a filósofos mo inicio do livro ) .

Mas ontem, ao me dar conta da quantidade de tarefas que tenho protelado, decidi ( e prometi a mim mesma )   começar o livro do primeiro paragrafo ( De novo!  Deixando de lado as primeiras e negativas impressões )  e ir até a última página  em poucas horas… acabei por adormecer as 2 AM deixando minha promessa se esvair em profundo sono.

Acordei atrasada para o trabalho, e quase esqueci de levar comigo r as 159 páginas do  senhor Barnes, mas  finalmente, finalmente terminei o livro! Então bora conferir minha resenha!

MINHAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A OBRA  

O livro é narrado em primeira pessoa por Anthony Webster ( ou Tony para os íntimos) , um  senhor de sessenta e poucos anos  que mergulha de cabeça nas memorias da juventude, afim de encontrar sentido para uma porção de questões que talvez não tenham tido um fim, ao menos não, com um  sentido claro. 

Durante anos você sobrevive com as mesmas sequencias, os mesmos fatos e emoções. Eu aperto um botão marcado Margaret ou Verônica, a fita corre, a mesma coisa de sempre aparece. Os eventos reconfirmam as emoções- ressentimento, uma sensação de injustiça, alívio-  vice -versa.

Não parece haver um jeito de acessar  outra coisa; o caso está encerrado. É por isso que você busca corroboração, mesmo que acabe sendo contradição. Mas e se, mesmo num período tardio, suas emoções acerca daqueles fatos  e pessoas do passado mudarem? 

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O tempo passa para todos, mas o que revela quem somos, nossa história, e tudo que vivemos é a nossa memória. Memória essa que com o tempo pode falhar, nos fazendo talvez nos perder de quem  fomos,  e assim consequentemente de quem deveríamos ser.

E hoje, quem somos? Sub produto do que vivemos,  ou o que pretendíamos realmente ser?

Quem era mesmo Adrian? Quem era mesmo Verônica?

Tony Webster busca responder a essas perguntas, enquanto acaba por perceber quem é, e sobre tudo quem foi. Numa reflexão nostálgica Tony procura compreender o passado, para encontrar sentido no presente. 

O livro traz fragmentos de muitas memórias da juventude do narrador, e suas impressões atuais sobre elas. 

Além de revelar fatos do presente como encontros com Margaret sua ex mulher, e uma serie de encontros com Verônica sua ex namorada da adolescência. 

Particularmente amo obras literárias que tratam do poder corrosivo do tempo,  e de  como os anos podem comprometer nossa memória a ponto de alterar o sentido de muitas ocasiões. 

Eu sei que o que vivi, com base em tudo que me lembro, mas se passo a esquecer o que vivi, fico confusa, não sei bem o que senti quanto estive lá ( no passado) , naquele lugar distante que é agora apenas uma memória nebulosa.  É assim que me sinto se por mais que me esforce esqueça do que fora outrora. 

Isso é humano! Esquecer é humano, afinal de contas quem de nós pode levar consigo a clareza de algo mais do que cabe em pequenos fragmentos de memória?

Eu não posso!

E por essa razão acabei por me identificar com Tony Webster, e talvez seja por isso que o livro tenha ganhado tanta repercussão  ( e vencido o premio MAN BOOK PRIZE 2011) . 

Se esqueço  o que vivi, logo esqueço o que senti, e  acabo por perder as lições por trás de tais sentimentos. Logo me perco de quem me tornei através dos episódios vividos, volto a estaca zero. Sem memoria de certos fatos, sem parte de mim…  Que sentido  tem o fim se nem me lembro do começo?

Embora não tenha me apegado tanto ao personagem em si, ou mesmo a construção dessa narrativa, gostei muito de como Julian Barnes  retratou a memória, e o que pode acomete-la com o passar do tempo. Fragmentos, nada além de fragmentos … algumas cenas, algumas coisas que nunca iremos esquecer, decepções, amigos que partem para sempre, o envelhecimento, a vida tomando novas formas depois de se tornar disforme. Esse livro faz uso da nostálgica analise de um personagem sobre sua  juventude, e acaba por levar o leitor a mergulhar nas suas próprias memórias. E refletindo nelas, nos perdemos um pouco de Tony, mas questionamos as mesmas coisas que ele. 


Sobre o livro *

O livro é dividido em duas partes, a primeira trás atona ao leitor as principais  memórias da juventude do narrador, Tony Webster. Já  na segunda parte Tony  está tentando encara-las mediante os fatos do presente ( 40 anos mais tarde ). 

O que leva Tony nesse profundo mar de nostalgia, é o fato de haver recebido como herança o diário de um de seus melhores amigos da juventude.   Tal inesperada herança  o leva a pensar não apenas Adrian ( seu amigo suicida, autor do diário), mas também em sua ex namorada Verônica.

A tentativa de recuperar mais memórias da juventude afim de compreender o atual estado de sua vida, o leva a muito remorso, e respostas que talvez não desejasse obter. 

Aos sessenta anos de idade, divorciado, pai e avó,  Tony conta com a ex mulher Magaret por um tempo, para tentar compreender certas coisas sobre si mesmo, mas logo fica por sua conta a compreensão nítida do que o passado fez do presente. Então Tony nota que passado não é apenas passado, é provavelmente o sentido que se esconde por trás do fim. 

 

 

 

É SAGRADO VIVER

WP_20160224_002.jpgEnquanto ‘Quem me roubou  de mim? ‘  (resenha aqui) é um livro  sobre  conselhos e psicologia acerca do sequestro da subjetividade, e ‘ Tempo de Esperas ‘ (resenha aqui)  um romance, eu não sabia  o que esperar ao certo de ‘  É sagrado viver ‘. Mas  li, e agora que o terminei  o que posso dizer ?

Esse livro é maravilhoso!  E de novo recomendo por aqui a leitura de mais uma obra do padre.

É SAGRADO VIVER é  um apanhado de experiencias do autor e sua singular percepção sobre elas. A morte de sua irmã, lembranças dos sabores da infância, os estranhos que lhe fazem pensar nas boas razões para se viver da melhor forma possível. Com sagacidade, bom humor ( no estilo de humor sobre o cotidiano e si mesmo, bem Max Lucado rs! ), poesia, e muita reflexão traduzida em palavras preciosas Fábio de Melo outra vez entrou na minha lista de livros favoritos. E por isso mais uma vez o recomendo !

Ver sobre/comprar: aqui

É Sagrado Viver – Padre Fábio de Melo
Editora Planeta
174 páginas

“A força da fala revigora o gesto. Palavras são artifícios da alma. Diz quem quer. Ouve quem pode.”  Pe Fábio de Melo 

 

Vamos comunicar a solidão

WP_20160209_009Descrição – fonte aqui 

Este livro trata do tema comunicação, dos fundamentos éticos da realidade e das implicações sobre os sujeitos que se comunicam, considerando que ninguém vive só, isolado. Assim, precisamos compartilhar. Mas o quê? A solidão. A nossa. Mesmo que de forma imprecisa e deformada por símbolos que nunca são. Talvez, confessá-la. Para nós e para o outro. Seja como for, precisamos comunicá-la, pois é a condição para a vida em sociedade.
 
O outro nos vê apenas como um personagem, tal como ele imagina que somos.
 

Mas há um  eu, o eu só, dentro de cada um de nós. Nossos desejos são só nossos, nossos encontros com o mundo só nossos. A solidão é nossa marca, somos singulares eis nosso fardo, estamos sós, á sós com nós mesmos o tempo todo. A solidão  é como o laço da existência por isso temos  por natureza ( por necessidade ) comunica-la. E um monte de nós sós tornassem companheiros de um mesmo objetivo, ser dois!

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Todos nós carregamos o peso de uma trajetória, toda memória do ontem ainda de algum modo habita nosso presente.  E nosso hoje em breve será parte dessa bagagem de memórias que constituí quem somos.
Quem fui, o que sou, não importa, serei sempre eu na companhia de meus outros eus, e isso é o que define minha trajetória.
Sou só, singular e emergido em lembranças. Lembranças só minhas, o que vivi, o que tive, o que perdi … só eu estive lá, só eu vi o mundo por trás desses olhos castanhos e cansados.
Só eu chorei naquela tarde por aquela perca, só eu senti o que senti …
E comunico minha dor ao outro, para que ele de algum modo a aplaque. mesmo que seja só ouvir um desabafo , de forma a diminuir a quantia de dor presente aqui…
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Quanto a mim quanto mais intimamente no que chamo de mim-mesmo, esbarro sempre numa ou noutra percepção particular, calor ou frio, luz  ou sombra, amor ou ódio, dor  ou prazer. Não  atinjo nunca a mim mesmo.  – HUME

Toda crise de identidade é na verdade uma crise de permanecia.  A identidade é sempre resultado provisório de um dialogo entre o social e o sujeito.

É porque eu identifico imediatamente uma semelhança entre meu corpo e o do outro que se opera uma transferência de sentido:  eu vivo como corpo; vejo um outro corpo como o meu; este outro corpo deve ser habitado por um outro eu. Como na analogia cartesiana , o outro surge a partir do eu.

Como observa Polin, ” toda avaliação implica numa avaliação de si mesmo ”. Porque o mundo é um espelho.

As coisas no mundo valem na medida em que nos satisfazem. Valores sobrepostos. Mudam-se os desejos, mudam-se os valores. O mundo nos afeta, nos oferece o desejado e, por isso, passa a ter valor.  Um valor singular, como é singular nossa trajetória nele.

Se  o valor é atribuído por um sujeito que  observa, o mundo não percebido é indiferente Não vale. Equivale a todo resto também não percebido. A percepção é, portanto, condição do valor. Sua atribuição depende de contemplação do mundo, recepção e emissão. Em suma de comunicação


 

Editora:  Vozes           Autores:  Clóvis de Barros Filho, Felipe Lopes, Bernardo Issler

Flertando com a escrita de Roland Barthes

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Como eu sempre fico de olho no que surge na sessão de Sociologia do meu sebo favorito aqui em SP, um dia acabei descobrindo Roland Barthes que foi além escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo… enfim, foi demais e como todo bom escritor será sempre demais!
FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO é um livro que explicou com exatidão o estado psicológico retardado de um ser apaixonado, o livro descreveu da maneira mais verdadeira possível todos os estágios interiores e exteriores que se da através de uma relação amorosa.
O livro me fez lembrar de certas situações vividas, me fez pensar em quem sabe amadurecer quando o assunto é amar ( ou demonstrar amor ), me fez rir e quase ( faltou pouco ) me fez chorar.

Já se perguntou porque ama a quem ama? O que torna fulana(o) tão especial?
Barthes já : “Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro pelo qual estou apaixonado me designa e especialidade do meu desejo. Esta escolha, tão rigorosa que só retém o Único, estabelece, por assim dizer, a diferença entre a transferência analítica e a transferência amorosa; uma é universal, a outra é específica. Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis o grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente? É ele inteiro que desejo (uma silhueta, uma forma, uma aparência)? Ou apenas uma parte desse corpo? E, nesse caso, o que, nesse corpo amado, tem a tendência de fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente? O corte de uma unha, um dente um pouquinho quebrado obliquamente, uma mecha, uma maneira de fumar afastando os dedos para falar? De todos esses relevos do corpo tenho vontade de dizer que são adoráveis. Adorável quer dizer: este é o meu desejo, tanto que único: “É isso! Exatamente isso (que amo)!”

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E se o que você ( assim como eu ) pensava ser amor acabou, como acaba a sessão de cinema daquela comédia-clichê-romântica, e você ficou se perguntando como será a vida dos personagens depois da cena final, bom eu sinto muito mas pode ser que até pra eles lá frente tudo tenha acabado. Como a maioria das coisas (coisas da vida) acabam, simplesmente porque devem acabar. Se esgota, termina e pronto!
“Como termina um amor? – O quê? Termina? Em suma ninguém – exceto os outros – nunca sabe disso; uma espécie de inocência mascara o fim dessa coisa concebida, afirmada, vivida como se fosse eterna. O que quer que se torne objeto amado, quer ele desapareça ou passe à região da Amizade, de qualquer maneira, eu não o vejo nem mesmo se dissipar: o amor que termina se afasta para um outro mundo como uma nave espacial que deixa de piscar: o ser amado ressoava como um clamor, de repente ei-lo sem brilho (o outro nunca desaparece quando e como se esperava). Esse fenômeno resulta de uma imposição do discurso amoroso: eu mesmo (sujeito enamorado) não posso construir até o fim de minha história de amor: sou o poeta (o recitante apenas do começo); o final dessa história, assim como a minha própria morte, pertence aos outros; eles que escrevam romance, narrativa exterior, mítica.”
É quase impossível o livro não falar diretamente com o leitor, o tempo todo você vai se ver nele, ou ao menos ver quem já amou nele.Acaba sendo divertido ler toda sua historia de amor narrada pelo outro ( que nem te conheceu rs! ).
Barthes apesar de ter uma escrita direta,  mas repleta de exemplos possuía o dom do que chamava de scriptor, cujo poder único é combinar textos pré-existentes em novas formas, por isso sua obra é cheia de trechos de grandes obras, e fragmentos de lembranças que tornam ainda mais fácil a compreensão do que ele deseja transmitir.
Barthes acreditava que toda escrita se fundamenta em textos anteriores, reescrituras, normas e convenções, e que estas são as coisas às quais nos devemos voltar para entender um texto. Além disso, de forma a apontar a relativa falta de importância da biografia do autor de um determinado texto, comparado com as convenções textuais e culturais pré-existentes, Barthes afirma que o escritor não tem passado, pois nasce com o texto. Ele também afirma que, na ausência da idéia de um “autor-Deus”, para controlar o significado de determinado trabalho, os horizontes interpretativos estão abertos para o leitor ativo. Como Barthes declara, “a morte do autor é o nascimento do leitor.

E esse (ironicamente ou não) é tipo de livro que vou ler de novo, de novo de novo.É … ACHO QUE ME APAIXONEI PELO  BARTHES …

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A errância amorosa tem seus lados cômicos: parece um balé, mais ou menos rápido conforme a velocidade do sujeito infiel; mas é também uma grande ópera (Wagner). O Holandês maldito é condenado a errar sobre o mar até encontrar uma mulher de uma fidelidade eterna. Sou esse Holandês Voador; não posso parar de errar (de amar) por causa de uma antiga marca que me destinou, nos tempos remotos da minha infância profunda, ao deus Imaginário, que me afligiu de uma compulsão de fala que me leva a dizer “Eu te amo”, de escala em escala, até que qualquer outro escolha essa fala e a devolva a mim; mas ninguém pode assumir a resposta impossível (que completa de uma forma insustentável), e a errância continua.”

Queria que alguém fizesse desse livro um mega  filme, uma mega peça … uma peça já fizeram, lá no Rio ( ver sobre aqui ) .

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E pra quem quiser ler mais trechos do livro antes de correr para o sebo mais próximo, ver aqui

A necessidade deste livro funda-se na consideração seguinte: o discurso amoroso é hoje de uma extrema solidão. Tal discurso talvez seja falado por milhares de sujeitos (quem pode saber?), mas não é sustentado por ninguém; é completamente relegado pelas linguagens existentes, ou ignorado, ou depreciado ou zombado por elas, cortado não apenas do poder, mas também de seus mecanismos (ciência, saberes, artes). Quando um discurso é assim lançado por sua própria força na deriva do inatual, deportado para fora de toda gregariedade, nada mais lhe resta além de ser o lugar, por exíguo que seja, de uma afirmação.’ R.B.

 Fragmentos de um Discurso Amoroso .  Roland Barthes – Martins Editora
Ps : A minha foto do início do post, é da 16 Edição (2001) Livraria Francisco Alves Editora S .A