Nunca mais

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Me desculpe por falar a verdade, e dizer que andei enganada acerca de   tudo

Me desculpe por te deixar cair, e não estender as mãos

Me desculpe pela flecha certeira no seu peito, e também  pela tarde fria regada a lagrimas

Me desculpe pelas milhas e milhas de palavras ao ar nublando seu caminho

Ah, por favor me perdoe por ser tão cruel

Por partir  e deixar a porta entre aberta, e nunca, nunca  mais voltar

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Passageira

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Sou passageira, sou  culpada e refém, sou peça do tabuleiro, fora do jogo há muito tempo

Não pude arriscar, não me deixaram tentar

P O R Q U E 

Nenhum lugar  no passado fora  confortável demais para abrigar o queimar das chamas

Nenhuma trilha de migalhas me levou a  uma ilusão que durasse mais do que alguns segundos

Nenhum um outro caminho que não seja o Seu

conseguiu guardar  o que levo comigo …

 

 

Ordinária

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Via tudo ao contrário do que é

Sonhava acordada e assassinava os próprios anseios para se manter viva

Num mundo onde ser egoísta era existir, ela optou por fingir

Fingia sorrisos, fingia não ouvir os rumores a seu respeito

Fingia até não ver os deboches de todos sobre ser como era, tal como parecia

Mas ela não era o que viam, nem tão pouco o que imaginavam

Era feita de concreto maciço, e por dentro era pura memória

Memória das vidas que sonhou ter tido

Vidas de quem tem alma de poeta, e um corpo carnal e facilmente corruptível

Mas o tempo a fez meio torta, quase atriz, mentirosa para o mundo e verdadeira onde importava ser

Ah se soubessem como era grande, rainha do seu próprio mundo

Ordinariamente imensa dentro se si

 

O soneto de minha autoria escolhido pela Editora Vivara

O hoje

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Hoje eu não vou pensar na paixão avassaladora da juventude que me escapou pelos dedos, e se casou com alguma mulher muito diferente de mim. Hoje não vou fazer contas, e ver se ainda tenho sanidade suficiente para o futuro. Não vou me pesar, não vou ao médico, não vou pensar na morte. Hoje não vou calçar nada, mas pretendo caminhar, ou quem sabe voar. Ir para qualquer lugar longe daqui, que não seja nem o passado e nem o futuro. Quero estar acima do tempo, quero ser livre da prisão dos calendários e das memórias.
Só hoje não vou sentir saudade da infância, vou ser complacente com o que quer que seja. Não vou julgar, não vou gritar, não vou pensar nos que me fizeram bem, nem nos que me fizeram mau, não vou pensar em trabalho, amor ou comida. Vou sucumbir na ideia do que posso ser no eterno. Vou me desfazer até sumir, não vou sentir frio, nem sono. Não haverá saudade que dói, nem carta ou email a esperar. O despertador não tocará, eu não vou dormir, nem despertar. Não vou viver dentro de um conto, ou morrer atravessando a rua. Vou ser o sempre, porque quis assim.
Vou voltar como se nunca houvesse partido, vou chorar um pouco e confessar, que mesmo desejando estar em qualquer outro lugar sempre estiver no hoje.

Pessoas

Renoir

Eu sou único e eles são todos
— Fiódor Dostoiévski – Notas do Subsolo, p. 56

Não era meu habito observar as pessoas, como tenho as observado nas últimas semanas. Mas algum tipo de mudança, tem acontecido, e uma vez que toda mudança seja ela qual for é significativa isso deve ter uma razão maior do que qualquer explicação que conseguisse deixar aqui. Por tanto, esquecemos as razões, apenas basta dizer que eu tenho tentando descobrir porque fazem o que fazem , do modo como fazem , ou porque deixam de fazer algo, e como isso impacta suas vidas.

tenor.gifAs pessoas do meu trabalho por exemplo, são todas bastante parecidas. Concordam sobre praticamente todos os assuntos. Concordam inclusive de que eu sou do tipo que costuma contrariar a maioria em praticamente todo assunto.
Já minha família, bom, basta dizer que para eles sou maluca, incuravelmente insana. E com isso concluo que não me conhecem o suficiente.
Pois além de insana, eu sou também agora, a observadora.
Tenho olhado  todos, as estranhas aberrações no trem, os executivos do centro, meu chefe, a secretária, o carteiro, o frentista, os estranhos no ônibus, as mães solteiras na fila do mercado, os idosos no hospital… me parecem tão resignados, e se estivessem felizes, daria um “viva” á resignação.
Mas parecem terem sucumbido a uma miserável vida na qual comer, dormir, fazer sexo e trabalhar basta (mesmo que não seja nessa ordem).
Mas e eu? Carregando esse insólito eu e mais uns vinte eus líricos, como posso suportar o fardo das obrigações, os trinta dias até o salário, as enormes filas do banco, meu diagnostico sem tratamento pelo governo, minha fome por alguma coisa surreal que abasteça o dia com algo mais do que cumprimentos falsos.
Gente indo e vindo, vida esvaindo…
Eu conheço uma mulher que engravidou na adolescência e hoje conta todos os dias a quantidade de comida que resta até o fim do mês, para saber se poderá sustentar a filha de seis anos. Conheço um tipico homem do que chamo ”o meio corporativo” na beirada dos cinquenta que quer dormir comigo, e acha que um dia vai conseguir. Conheço um outro homem , esse de 30 anos, que traí a esposa toda semana com garotas mais jovens, mais diz que nunca irá se divorciar por não querer que outro homem crie seus filhos. E tem também a insuportável estudante de direito que pensa ser dona do mundo, e que por alguma razão me odeia… não consigo ver razões em suas escolhas sejam elas do passado ou do presente.
Compreendo é claro, que a mãe queira alimentar a filha, que homens de quase cinquenta daquele tipo querem transar com qualquer mulher com menos de trinta, que é quase sinônimo de ”hombridade” querer criar os próprios filhos, e que pessoas que cursam direito, bom são pessoas que cursam direito então…
Eu apenas me pergunto se assim como eu, eles possuem fomes mais urgentes, algo que a alma peça, e seja maior do que fome de alimentos, desejo, orgulho ou ambição profissional.
Eu observei bastante, eu até conversei com eles, mas eu não achei o que procurava.
São imensos, são universos, são pessoas, que para mim são parecidos entre si, justamente por não se parecem comigo.

Insânia nuvem

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Ver o mundo escurecer costuma me arrastar para baixo
Serve de impulso para o que alguém chamaria de crise
E eu já não sei se caio, ou apenas me canso de ficar em pé

Escuto o som da queda e vejo o que não existe em uma nuvem lá fora
Eu já não sei mas o valor do espaço, entre a sanidade e a loucura
Deve ser uma linha de tédio, a que divide o horizonte do país das maravilhas

Horas servem para contar os exaustivos minutos carregando o peso de uma vida
Mas eu tenho reparado na velocidade do tempo
E quando o encaro face a face, ele desaparece

Existir é uma fantasia
Fomos obrigados a engolir todas verdades
E vomitamos mentiras para sobreviver

Sou meio incrédula quanto a tudo
E tudo parece desconfiar de mim o tempo todo
Mas há de fato uma metamorfose acontecendo no céu