Diálogo sobre dor

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Falávamos sobre ausência quando notei seu olhar marejado, e então perguntei :

– Você está bem?

– Estou. Embora nunca feliz. 

– O que  quer dizer?

– Desde que ela faleceu nunca mais fui o mesmo, e sei que nunca mais serei feliz. Tenho bons momentos, momentos de alegria, mas felicidade não mais. A felicidade se foi com ela.

– Não acho que deveria pensar dessa forma.

– Não escolhi pensar assim, simplesmente é desse jeito. Porque é assim que sinto, e não se pode mudar o que é, o que se sente.

– Gostaria de poder ajuda-lo mais não sei o que dizer.

– Não diga nada. Sensibilidade doí mais é necessária. Só agora sentindo a ausência dela consigo compreender tudo o que significa pra mim, e consigo ama-la muito mais do que antes. Talvez seja isso …

– O que ?

– A morte  talvez seja algum tipo de lição para ensinar aos que ficam algo sobre o amor. Inevitavelmente numa constatação envolta em dor… Queria  apenas mais um por do sol perto dela, mais um almoço juntos, só mais um momento, uma lembrança a mais, mais um dia. Queria nunca sentir  essa falta, nunca aprender essa lição, mas por alguma razão sou eu quem permanece desse lado.

 

 

PS ‘ Conversa com um amigo que perdeu a mãe em 2014 . 

Bia, a morte e uma lição

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Conheci através do novo trabalho uma garota, que vou chamar aqui de Bia.

Minha primeira impressão a respeito dela deixou claro que somos demasiadamente diferentes, Bia ama Matemática ( eu odeio! ), adora beber ( eu só bebo chá rs! ), se envolve em relacionamentos abertos por diversão ( eu vivo no celibato rs! )…

Mas apesar das diferenças, Bia me pareceu ser uma garota legal, é inteligente, tem lindos olhos verdes que contrastam com sua pele morena , curte redes sociais, é viciada em series ( e fala muito sobre), apaixonada por mil e um atores (dos quais como uma adolescente fica admirando as fotos no celular). Demonstrou desde que a conheci demasiada preocupação com  a saúde da mãe, parece ter um lado maduro que cresceu depois de tanta dor. Bia perdeu o pai e o namorado no ano passado, e vinha falando muito sobre sua família ( ou que restou dela, sua irmã mais nova e um irmão casado que mora em outro estado). 

Bia disse que gostava muito de festas, mas desde que ficou desempregada ( á 6 meses atrás) deixou de frequenta-las e cortou laços com algumas pessoas. Sua irmã a motivou ficar em casa dizendo ‘ Se um dia a mãe falecer você será quem mais sentirá falta dela, pois nunca passa um tempo aqui! ‘ 

Passando a ficar em casa vendo series e na companhia da mãe, Bia  desfrutou mais da família, e talvez por essa razão vinha falando tanto sobre.

Na sexta-feira passada recebeu uma ligação de sua irmã dizendo que sua mãe estava no hospital, após demonstrar sérios problemas relacionados á pressão. 

Com os olhos cheios de lágrimas  e tremula Bia se despediu de mim e foi as pressas buscar a mãe.

Ontem( segunda-feira ) nos vimos novamente no trabalho, ela parecia estar feliz com a melhora mãe e disse aliviada ‘ Foi só um susto! Nem sei o que seria de mim sem ela!‘ 

Bia recebeu horas depois outra ligação de sua irmã, saiu as pressas nem se despediu …

Sua mãe faleceu.

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Sei que faz pouco tempo que a conheço, mas hoje fez  falta para todos a presença de Bia, principalmente porque todos nós sabemos que ela não está lá por sentir uma ausência maior.

Todo mundo se sentiu parecido com ela agora, todos também adorariam se as mães fossem eternas,  e  se nunca ligações de urgência  nos roubasse quem amamos.

Bia me ensinou uma lição valiosa. 

Eu não a conheci durante os seis meses próxima da mãe, talvez ela nem tenha aproveitado esse tempo o suficiente a julgar por agora, mas quem de nós saberá quanto tempo ainda temos para amar? 

Não temos nada se não o agora. 

Boneca

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Ela quis se levantar mas não podia
Seu corpo parecia estar como que sem vida
Não tinha força nos joelhos, não podia sobre suas pernas suportar o peso de sua doença
Ainda respirava mais ninguem notava
Parada la como uma boneca, num rosto opaco e sem vida
Sem sorriso, sem alegria
Imóvel
”Quase bela e sem vida!” diziam todos que a viam

Mas era uma menina
Uma menina de carne e osso prestes a congelar pra sempre
Partindo lentamente, enquanto caiam seus cabelos 
E quem poderia costurá-los de volta em sua cabeça?
Quem colaria suas unhas no lugar?
Quem lhe devolveria o brilho de existir?
Ela estava se desfazendo
Suas lágrimas molharam a fase
Doia partir
Ignoraram o fato
Ou simplesmente não a viram chorar

Meu acidente (TCE), Anemia e melancolia

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Em Abril de 2012 eu fui atropelada, foi um acidente grave porque fui atropelada por um ônibus (desde então muita coisa mudou). Fiquei em coma, e de acordo a documentação médica sofri um Traumatismo Cranioencefálico em grau leve.

Para quem não sabe do que se trata o TCE > Os traumatismos cranioencefálicos (TCE) são um tipo de traumatismo craniano que responde à quarta principal causa de mortalidade nos EUA nos últimos 40 anos. Traumatismo cranioencefálico (TCE), também conhecido como lesão intracraniana, ocorre quando uma força externa causa um ferimento traumático no cérebro. TCE pode ser classificado com base na severidade, mecanismo (ferimento fechado ou que penetra o crânio), ou outras características (como, por exemplo, ocorrência em um local específico ou em uma área ampla). Lesão na cabeça geralmente se refere a TCE, mas é uma categoria mais ampla, podendo englobar danos a estruturas que não o cérebro, como o couro cabeludo e o crânio.
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Traumatismo_cranioencef%C3%A1lico

TCE PAF neurotraumatologia - dr. alexandre cruzeiro

Níveis de gravidade
A gravidade do TCE pode ser avaliada levando-se em consideração o nível de consciência do paciente segundo a escala de coma de Glasgow (ECG). Esta escala é aplicada pelos médicos e avalia três parâmetros que são: 1) abertura ocular; 2) melhor resposta verbal e 3) melhor reposta motora. A pontuação vai de 3 a 15. Quanto menor o valor obtido, pior será o trauma.

TCE leve – ECG-14 ou 15 pontos com história de perda de consciência e ou alteração da memória ou atenção maior que 5 minutos. Em crianças menores de 2 anos perda de consciência menor que 1 minuto.
TCE moderado – ECG- 9 – 13 pontos ou perda de consciência maior ou igual a 5 minutos e ou déficit neurológico focal.
TCE grave – ECG menor que 8 pontos.

Fonte: http://www.cenepe.com.br/duvidas-frequentes/saudes-doencas/traumatismo-cranioencefalico/

Traumatismo Cerebral Leve
Quando não há ocorrência de lesões sobre o cérebro ou não são diagnosticadas por exames laboratoriais, como o EEG, o Raio-X de crânio, a tomografia computadorizada e a ressonância magnética, neste caso o estado clinico do paciente é leve.[1]
Os sintomas que aparecem sob a forma de manifestações somáticas, cognitivas, sensoperceptivas, emocionais ou comportamentais, o paciente apresenta múltiplas queixas de dor e desconformo, além de uma variedade de seqüelas psiquiátricas maiores que incluem estados psicóticos similares à esquizofrenia e transtornos do humor e ainda de síndromes de ansiedade variadas e convulsões.
Estes pacientes, embora em pequeno número, apresentam a síndrome pós-concussional, que pode perdurar por dias, meses, anos ou para o resto da vida. Tal quadro sintomático pode ser representado, em termos psicossociais, por extremas dificuldades em áreas críticas de funcionamento, como no trabalho, na escola, nas relações familiares e interpessoais e em atividades de passatempo ou lazer.

Sequelas
TCE pode causar uma série de efeitos físicos, cognitivos, sociais, emocionais e comportamentais, e o resultado pode variar de recuperação completa para deficiência permanente ou morte. No século XX, houve progressos substanciais no diagnóstico e tratamento que diminuíram taxas de mortalidade e melhoraram resultados. Algumas das técnicas de imagem atuais utilizadas para o diagnóstico e o tratamento incluem tomografia computadorizada e RMs ressonância magnética. Dependendo da lesão, o tratamento exigido pode ser mínimo ou pode incluir intervenções tais como medicamentos, cirurgia de emergência ou uma cirurgia anos depois. Fisioterapia, fonoaudiologia, terapia lúdica, terapia ocupacional e terapia visual podem ser empregadas para reabilitação.

Ver mais sobre sequelas do trauma  aqui 

Abaixo alguns dos meus exames de ressonância magnética :

EXAMES

O acidente me causou um grande abalo emocional na época, o pós coma (o período de redescoberta acerca de si mesmo é uma fase muito complicada!), a volta ao trabalho a aceitação dos fatos, tudo foi muito difícil!

Esse período também me fez ter varias dúvidas, e crises em relação a minha fé. Me prejudicou muito na vida profissional, afetiva e social de modo geral.

Embora, graças a Deus não tenha tido sequelas físicas, desde então não me sinto a mesma. Talvez tenha sequelas emocionais e comportamentais com as quais ainda não aprendi a lidar.

Não foi avaliado por um médico que o trauma tenha alguma ligação com o aumento do meu fluxo menstrual desde então. Mas  esse aumento, foi um dos fatores apontados por um profissional, que pode ter  desencadeado minha anemia.

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ANEMIA 

A anemia é uma doença muito seria que infelizmente não é vista pela sociedade como um risco real até mesmo a vida do individuo que sofre seus sintomas.

Eu pretendo falar mais sobre o assunto por aqui, porque ano passado fui diagnosticada pela segunda vez com anemia (ANEMIA PROFUNDA) e fui tratada com remédios para o aumento de ferro no sangue.

Eu melhorei, mais o que os sintomas da doença desencadeou em minha vida no ano passado foram além de problemas de saúde.

Complicou meu desempenho no trabalho, minha relação com o namorado, problemas com amigos e familiares…

Até que fiquei sem emprego, sem namorado , e brigada com muita gente!

Para quem não sabe, alguns dos sintomas da ANEMIA são:

*Destaquei em negrito os sintomas que voltei a sentir nas últimas semanas*

Mal-estar, tontura e náusea
Queda de cabelo, unhas fracas e quebradiças, esclerótica azulada, pele seca;
Sonolência e dor de cabeça;
vertigens, atordoação, desmaio;
Taquicardia (ritmo do coração acelerado);
Claudicação (dores nas pernas), inchaço nas pernas;
Dispneia (falta de ar);
Inapetência (falta de apetite) ocorre frequentemente em crianças;
Queilite angular (inflamação da boca), atrofia de papilas linguais.
Depressão nervosa (perda de prazer em atividades), perda do interesse sexual;

fadiga generalizada/cansaço/indisposição (*menor disposição para o trabalho)
anorexia (falta de apetite)
palidez de pele e mucosas (parte interna do olho, gengivas)

dificuldade de concentração e falta de memória
problemas respiratórios; distúrbios mentais
batimentos cardíacos acelerados

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Sim! Eu me alimento bem!

E apesar de ser um dos sintomas não sinto falta de apetite. 

Provavelmente minha anemia voltou ( e voltou pior do que no ano passado ) e agora acompanhada dessas dores de cabeça na região em que sofri o trauma.

Claro, vou ao médico para receber o diagnostico correto, e volto pra contar para vocês se morro em breve ou não rs!

Enquanto isso minha melancolia está em alta, o que provavelmente vai render muitas postagens tristes, dramáticas e  chatas.

Mas eu preciso muito escrever! Mais do que nunca!

Obrigada a todos(as) que me enviam mensagens e e-mails, e que de alguma forma me apoiam ou desejam minha melhora! =D Obrigada!

País do silencio

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O telefone tocou
Era a morte outra vez
Inquieta, precoce, cruel
Me levou outro alguém
E parte de mim desde então se apegou ao passado
Se tornando impossível esquecer o ontem que me causa as lágrimas de hoje
É inevitavel não sentir o cheiro da ausencia do ser velado
Me deixando aqui condenado em vida a lamentar o que de mim foi tirado
Memórias, vozes, gestos, momentos, para onde foram todos?
Para onde foi a vida que a pouco estava aqui compartilhando comigo o verbo existir?
A morte calou os sinos da igreja
Sucumbiu as alegrias
Deixou saudades quando levou para baixo da terra meninos e reis
Todos descendo iguais para o país do silencio
Enquanto nos choramos
Aqui sobre eles, não descansamos, não temos paz

 

 

Com imensas saudades do Paulo. Com imensas saudades do abraço que me fazia se sentir abraçada por Deus.

Paulo

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Meu primeiro luto de verdade aconteceu no dia 31 de Dezembro de 2015.

Eu já  havia perdido  minha prima pra um câncer terrível, minha avó também em 2015…

Mas de verdade a maior dor de haver perdido alguém, foi essa.

Eu o conheci quando era uma adolescente descabeçada, ele foi meu pastor, meu grande amigo, conselheiro, intercessor.

Grande parte de quem sou ( minhas melhores partes ) devo a ele.

Com muitos dos meus familiares não partilhei tanto de mim, e por mais cruel  que seja confessar isso por essa razão soube lhe dar melhor com a ausência dos que partiram.

Mas não sei lidar com a falta que ele faz. 

E ele se foi…

Na véspera de Natal um AVC, ficou internado e partiu dia 31.

Eu sinto sua hoje, sinto sua falta todos os dias passando em frente a igreja achando que ele irá sair de lá e me dar um abraço, como fazia sempre que me via.

Sinto falta de saber que ele estará orando por mim.

Eu sinto a falta dele, e isso dói.

Mas eu sei onde ele está, sei pra onde vai as pessoas boas de verdade.

E agente não perde algo que sabe onde está né?

Eu só queria ter dito o quanto o amava, o quanto é importante pra mim.

Eu só queria mais um abraço.

Eu ainda queria ele aqui!

 

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Agente se vê de novo Paulo.

A terapia de lembrar

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Eu havia feito uma promessa, mais uma promessa a mim mesma que não fui capaz de cumprir…
Eu voltei atrás como sempre faço a respeito desses delicados assuntos.
Havia jurado, sacramentado … mas eu menti, como sempre minto sobre o que não aceito ser a verdade.
Entrei novamente naquele cubículo mau cheiroso onde guardei desajeitado grandes traumas e pequenas vergonhas. Me coloquei dentro da memoria pra tentar altera-la … e não pude mudar nada.
Lembrar é vicio, adoece, mas como todo vicio trás a falsa impressão de ser a solução, a cura.
E por alguma razão que desconheço permaneci ali por mais tempo do que o necessário, e o passado alterou parte do meu presente, mas um segundo e talvez altere todo o futuro.
A porta fechada, os demônios do medo exorcizados em mim.
O medo que morava aqui teve de abrir a porta, e eu finalmente pude fugir da dor das minhas próprias memorias sem ter de fugir delas.
Lá se vai o medo de lembrar, o medo de certos rostos … o medo de ter memoria.
É estranho quanta dor cabe em algumas lembranças, objetos viram armas, cartas sentenças, fotos vestígios de ilusão… vida desperdiçada, tentativa vã de felicidade.
É estranho que mesmo tendo novas lembranças as velhas ainda ocupem tanto em nós… por alguma razão deve ser assim … talvez lembrar seja a melhor terapia, ou creio nisso apenas porque não posso evitar.
Há coisas que uma garota nunca irá esquecer
Um grande amor, um enorme desastre
Meu melhor dia  e meus piores momentos.