As perfurações

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Uma lança, uma opinião, um conceito mau formado  e pontiagudo  vem disposto a tirar-me o sono. Atormentar com armas, minha bolha quente e confortável, que  é para mim como um útero,  um lar. 

Amargas perfurações de verdade, se não fossem por ti, como o sol entraria aqui? 

É bem verdade, que toda  placenta estoura. 

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Ciclo do autoconhecimento

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Aqueles dias noutro tempo  eram considerados os belos dias.  Mas então a luz! E logo já não eram tão belos assim. 

Eis  a desilusão amiga, me  apontando as tolices que antes não via. 

Mas é  chegado o tempo em que vejo demais, e como  que afim de evitar o erro, temo a vida.  

Precaução demais! -grita  o coração.

Teimosia! Outro erro, outra dor , uma nova culpa, uma tatuagem, cem anos de solidão …

Esse é outro tempo!

Eis a  ilusão  amiga, a qual abraço já  sem medo, pois sem ela não  viveria. 

Testemunha

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Lembro me agora, com certo esforço confesso, que a lua aquele dia estava posta  no céu sem muito esplendor. Isso porque irradiávamos maior luz.

Não sei ao certo agora, pois só há fragmentos estranhos dessa memória particular em mim, mas creio que não  estava frio, e nem quente demais.   No entanto me lembro bem que ardíamos… congelados pelo medo de calar o sentimento evidente.  E isso  é tudo que sei sobre aquela noite. É tudo o que sei  sobre o que somos, ou eramos.

Qualquer coisa sem importância   grita a lua agora, em vão, enquanto amaldiçoamos os versos de  amor  deteriorados pelo tempo.

Já se foi aquela  noite, e mais seiscentas depois dela.

Já  se foi  também quem eramos,  e o único mau agora é a lua, pois esta ainda existe pra nos lembrar  aquela noite.

Feche então os olhos, tape os ouvidos e tente não ouvi-la, ignore a lua e o que ela nos diz.

Ela é a única testemunha que resta, e se não for ouvida, não  seremos tão  culpados assim.

Leitura leve: Estamos Bem de Nina LaCour

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Eu estava na livraria Nobel comprando o livro Histórias de Ninar Para Garotas Rebeldes quando me deparei com a linda arte de capa de  Estamos Bem, da escritora Nina LaCour. Dei uma lida rápida na contra capa e resolvi levar.
Li o livro em menos de quatro dias, entre idas e vindas de ônibus. Achei a leitura bem tranquila, é um livro gostoso de ler (compreenda isto como UM LIVRO QUE NÃO CANSA! e que pelo contrário, mesmo escrito de maneira simples instiga a prosseguir com a leitura).
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O livro é escrito em primeira pessoa, e nos leva a um mergulho na solitária vida  Marin, uma jovem  órfã que morava com seu avô na Califórnia (até que este também morre).
A história é marcada por alguns acontecimentos, entre eles o romance lésbico entre Mari e sua melhor amiga, o que não ocupa muita parte do texto, mas que serve para mostrar a carência e até mesmo sensibilidade da jovem personagem com relação a afeição.
Em suma é um livro sobre a dor da perda e  como essa pode nos afetar.
Gostei de como foi escrito ( principalmente da cronologia  que tornou a leitura leve), houve muita sensibilidade na abordagem da solidão e  perda, de modo que não fez soar exagerado ou melodramático. Nos mostra que a vida sempre irá nos surpreender, de maneiras boas e ruins, mas apesar de ambas tudo muda outra vez… e nos sobrevivemos!
 91EdSzm72nLAutor: Nina LaCour
Gênero: Romance contemporâneo

Antes dos 30: Na beirada dos vinte e sete e já me sentindo um personagem de 42 do Ben Stiller

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Tinjo o cabelo desde os onze anos, pois gosto da sensação de mudança. Mudava sempre e  por qualquer motivo, mas na maioria das vezes sem razão sensata alguma. Hoje em dia tinjo de preto e apenas de preto, para disfarçar os fios brancos que começaram a nascer cedo, se multiplicaram, e agora são muitos. 

Minha postura já não é a mesma, o que me deixa com dor nas costas com certa facilidade.

Surgiu uma barriguinha que nunca esteve aqui.

Esses dias depois do almoço mordi uma bala (que me lembra da infância), e meu dente cariado quebrou, não deu outra, tive que arrancar o que restava dele.

Agora aqui estou eu, escrevendo  sobre  os três anos antes dos trinta/como é se sentir um tanto quanto velha (em relação a como me sentia antes), e claro estou usando óculos por conta da miopia, sendo cautelosa pra não me mover tanto a ponto de desatar os pontos na gengiva. 

Assisti esses dias no Netflix a uma comédia bobinha do Ben Stiller, cujo o titulo  era  ENQUANTO SOMOS JOVENS.

No filme: Josh Srebnick (Ben Stiller)  é casado com Cornelia (Naomi Watts) a alguns anos, vivendo uma vida sem muitas surpresas, e um tanto quanto chata. Mas ao conhecerem um casal  na faixa dos vinte e cinco começam a comparar sua vida a deles, e assim acabam por perceber  o quanto envelheceram, e sobre tudo o quanto poderiam ainda sim serem como os jovens em relação a acertas coisas. 

O louco é que assisti ao filme, me identificando mas com a crise  de idade do Ben Stiller do com os personagens jovens. 

E veja a ironia, logo eu apaixonada por mudanças desde criança, agora com receio de uma mudança natural e inevitável. 

Daqui treze dias completo vinte  e sete anos, e embora esteja vivendo a melhor fase da minha vida até aqui, e me considere mais segura e madura em relação a antes, mas ainda longe de ser o suficiente!  eu me pego tendo medo de não me reconhecer numa mulher de trinta.

Logo eu que li Balzac aos quatorze temendo agora me perder de mim…

E se eu não me reconhecer mais nas músicas que hoje ainda fazem sentido?

E se passar a temer arriscar? 

E se algo aqui nunca maios for o mesmo?

E se fizer planos e mais planos e …

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Eu vou ter essas palavras, e me lembrar de como era  ter medo do que não deveria temer.

Soneto da vida difícil

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Não houve favoritismo algum, foi preciso acordar cedo e dar a cara a tapa

Foi preciso um coração de aço e joelhos capazes de suportar milhas e milhas

Foi preciso ler os sinais e os bons autores além da contra capa

Não houve lugar por onde não vagasse sua alma, na imensidão sonora de trilhas

Era preciso que fosse poeta, mulher, amante e aprendiz

Fora tudo e muito mais que se possa crer existir

Era no eu lírico uma multidão morando numa única cicatriz

Fora divina, rainha e imperatriz numa só vida regada á mártir

Não há quem não a sentisse penetrar a alma

Foi refém da própria falta de calma

Era insólita, imatura e neurótica

Era a encarnação de uma cronica em cada defeito que possuía

Era estranho vê-la partir de mala e cuia

Quase sempre sem rumo, acabava no destino certo de uma viagem caótica