17:59

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Esse ano vem sendo no mínimo diferente pra mim.No início do ano, lá no dia 1 de Janeiro,eu acordei bem cedo (nem aguentei de sono muito tempo depois da virada) porque tinha de ir ao trabalho. E por falar em trabalho dois meses depois, estava em outro emprego (ou seja em dois).
Até que recebi um convite de trabalho que pareceu  tentador, e então deixei meus outros dois empregos ( mas isso foi muito mais do que sair de empresas, me fez abandonar  uma rotina,amigos e eu arrisco dizer um eu que se perdeu ).

Quem acompanha o blog sabe que fiquei doente e isso estava me prejudicando nas minhas atividades,e foi uma das razões que me fizeram aceitar a nova oportunidade de trabalho sem pensar.E então visando minha saúde,e finalmente uma ascensão profissional e dinheiro, eu mergulhei de cabeça nesse novo trabalho.
Acabei viajando e conhecendo pessoas,indo a lugares que nunca havia ido antes, e claro passado horas num escritório imaginando o que estava acontecendo fora daquelas paredes. É eu estava infeliz,muito infeliz eu diria.

Algumas pessoas juram que nasceram pra se sentarem naquelas cadeiras giratórias e fazerem cotações, acordos e contratos, outros dizem que são movidas pelo dinheiro que isso proporciona, pois o que ele pode comprar é sua maior motivação.

Mulher-cansada-no-trabalho

 

Mas sentada ali eu ficava tentando imaginar os estranhos na rua caminhando numa tarde ensolarada,ou quem sabe enfrentando uma terrível chuva. Algum vestígio de vida,qualquer coisa além de metas e papéis,e então eu contava cada minuto até as dezoito horas enquanto presumia que ainda existia vida real lá fora.

As 17:59 sentia meu coração saltar,o coração que durante oito horas me impediam de usar estava pulsando de novo,já não era mais um robô,estava aliviada e feliz.

Voltava pra casa sendo eu mesma de novo, mas estava cansada, e só de pensar em ter de voltar no dia seguinte,no outro e no outro até o fim de semana eu já me entristecia.

No almoço as colegas de trabalho falavam sobre como a hora de almoço passa rápido enquanto a última hora para as dezoito  parecia ser uma eternidade,se queixavam dos gerentes,da empresa,do salário,dos maridos,dos  filhos,enfim da vida.
Falam mais do quanto eram infelizes no trabalho,fosse viajando ou no escritório,e fartas de serem infelizes se cabavam umas às outras de beber muito no fim de semana (o que pra mim só mostrava ainda mais o quanto são infelizes) e planejavam a próxima balada ou passeio.

Eu ficava calada  a maior parte do tempo,não sou casada e não tenho filhos o que elimina a maioria dos assuntos em comum com elas,não  bebo e não sei esperar até o final de semana para encontrar uma válvula de escape. Eu escrevo,me apaixono,desapaixono,escrevo, vou ao cinema,leio, sujo telas,vejo filmes na Internet,mantenho esse blog no ar,imagino historias e sonho que elas posam ser reais. Não preciso beber pra “lidar”  com algum trauma,me divertir ou ficar “bem”. Levo minha vida entediante enfrentando meus demônios e arrumo tempo pra divertir de verdade  (do meu jeito) apesar dos pesares.

Mais eu ficava ouvindo elas,e pensando no porque estava tão infeliz e não achava uma resposta sobre.

Me esforcei e quis “amar” o que fazia,mais aquilo no máximo me proporcionaria dinheiro(depois de muito dinheiro a empresa claro).
Foi quando comecei a me dar conta que estava vivendo uma dicotomia,meu corpo vivia pra cumprir obrigações de uma agenda,enquanto minha alma berrava ‘O que você está fazendo? E por que ?’

Eu conversei com algumas pessoas sobre,e pensei ALGO ESTÁ MUITO ERRADO.POR QUE NÃO CONSIGO FICAR FELIZ COM A ESCOLHA QUE FIZ?

Meu corpo estava farto de ter que se parecer com uma máquina programada pra trabalhar de segunda a sexta , enquanto meu espírito me enchia de perguntas sobre minha alma estar perdida em algum lugar onde perdi também meus reais objetivos de vida.

Sabe,o problema não era o cansaço e o desgate, eu sei o que é  estar cansada por trabalhar em dois empregos,era algo que me fazia mau interiormente.
Eu me via triste a maior parte do tempo,e pensava na vida e nas pessoas que deixei pra trás (uma delas meu muro inspirador),senti saudades de todos os amigos,do caminho por onde ia, e de quem eu era e o que sentia.

Alguns meses atrás eu era uma garota apaixonada,determinada e feliz apesar de ter estado adoecida e cansada.E me vi na mesa daquele escritório tendo de buscar na mente o que era estar viva.

Eu não trabalhei no meu último dia naquele escritório,eu fiquei imaginando como iria fazer pra pedir as contas (sabendo que não ia pedir ),imaginei a reação dos meus pais por me verem abrir mao de uma boa oportunidade (E nem na minha imaginação eles aceitavam bem).

Peguei meu celular  faltando alguns minutos para  ir embora,e escrevi pra mim mesma :

ISSO É TEMPORAL,É O QUE VOCÊ QUER?
A OMISSÃO ACABA PARECENDO SER O PARAÍSO, MAS É  SÓ UMA QUESTÃO DE TEMPO ATÉ O INFERNO INEVITÁVEL PRA ONDE ELA TE LEVA!

Senti como se houvesse sido golpeada no estômago quando li essas palavras.

Dicotomia!Eu acho que a outra parte de mim falava comigo.
É isso é bem estranho, 17:59 peguei minhas coisas e ia saindo quando a gerente me chamou pra conversar.

E finalmente aconteceu, fui demitida ao invés de pedir as contas (como costumo fazer,só esse ano duas vezes),em resumo ela disse que sou fantástica  (é ela usou essa palavra *fantástica, e disse que talvez se arrependesse de me demitir porque eu era pontual, profissional e bla blá blá ),mas contratou o próprio filho no meu lugar(isso é tão anti ético que podia render outro post,mas devido às circicunstancias e o todo meu foco é  outro ).

Apesar da sensação estranha de estar pela primeira vez sendo demitida (e da certa revolta por haver  largado dois trabalhos pelo tal) eu senti um alívio.

Pareceu que alguma coisa balançou minha vida,e isso a colocou no lugar de novo.
Eu não entendi ainda exatamente aquelas frases que escrevi,mas fico feliz por nós últimos dias não olhar pro relógio as 17:59 me perguntando sobre o porque de estar me fazendo tão infeliz.

Apesar de sentir que as coisas voltaram aos trilhos eu ainda não tomei grandes decisões ou fiz grandes coisas.Eu estou imóvel resolvendo o que realmente quero,e analisando o quanto isso é ou não temporal demais pra valer meu tempo de vida.

A vida é tão preciosa e eu a tenho deixado escapar no passar  sem sentido de horas é horas… meses e anos me dividindo em duas.

Sendo em parte a pretensão dos meus desejos temporais e uma outra metade trancafiada esperando algum outro momento pra se mostrar.Quem sabe amanhã, quem sabe daqui a pouco no minuto seguinte as 18 horas.

C o n t i n u a   em    Dicotomia (Filosofia,Teologia) e partes de mim

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13 comentários sobre “17:59

  1. Hoje em dia, a felicidade parece ser algo difícil de encontrar, especialmente no ambiente de trabalho. Mas finais podem ser oportunidades para novos começos.
    Já dizia Wislawa Szymborska: “Porque afinal cada começo/ é só continuação/ e o livro dos eventos/ está sempre aberto no meio.”

    Curtido por 2 pessoas

  2. Me intriguei com sua história! Com toda remoção de intuitos, votos, apresentações… e o que a gente espera sobre nós? Será que estamos contentes sobre cada ponto e asterisco que colocamos em cada passo de nossa vida? Será mesmo que se monitoramos o centro de nosso entusiasmo, o término do dia será de bom proveito? Ás vezes, o que precisamos está bem a nossa frente. E as grandes oportunidades são aquelas que te deixam feliz sem ter o mérito de se questionar.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Boa Jak! É o que estou buscando, algo que não me faça ter mais questionamentos baseados em frustrações. Mais acho que não tem muito como escapar disso, é um risco eminente em cada escolha/oportunidade. To me esforçando para aprender a lidar com isso,tentando ver um lado bom nessas coisas …

      Curtido por 2 pessoas

  3. O problema maior que notei neste seu texto maravilhoso, revelador da angústia por você sentida, é a sua preocupação em estar “perdendo” tempo…
    Não, Jaque, como vc mesma mencionou que está tentando ver o lado bom das coisas, veja o lado bom desse tempo “gasto”…
    Por que utilizamos sempre esta concepção de que estamos “perdendo” algo? Só por que o relógio não para? Bem, pode ser que sim, mas pense que todos esses segundos já vividos foram/são importantes como aprendizado… Um segundo a mais de tempo decorrido é igual a um segundo a mais de experiência sobre a vida. É claro que esse sentimento de perda fica gravado em nós, mas porque não considerarmos tais segundos como ganhos? Eu prefiro ver assim, ainda que o sentido de gastos seja muito mais natural para seres humanos tão acostumados a ver a vida através de suas próprias medições e valores. Que tal? =P

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